Uma coisa morta pode seguir com a corrente, mas só uma coisa viva pode ir contra ela. G. K. Chesterton


29 de junho de 2011

Seu Pedro - O segredo para chegar aos 100 anos com saúde

Foto: Nayana Melo

Minha matéria n´O Estado. O seu Pedro é meu avô.

Imaginem um homem que pode anunciar “Tenho um século”, e em seguida impressionar a testemunha da afirmação com uma mostra de habilidade física, pondo-se no chão, agachado, e erguendo-se só com a força das pernas e o equilíbrio do conjunto. Esse homem é Pedro Nunes, que hoje completa 100 anos com a coluna reta, saúde em ordem e, de uns meses pra cá, bebericando uns copinhos de licor, que é pra espantar a velhice.

Primeira guerra, segunda guerra, fim da República Velha, início da outra, Estado Novo, Getúlio morto, Jango enxotado - Pedro passou por isso tudo e mais. Nascido em 29 de junho de 1911 em São Luís do Curu e batizado segundo o santo do dia, migrou para Fortaleza e arrumou o primeiro emprego, aos 19 anos, como operador de máquinas na firma de Antônio Diogo Siqueira, esquina da Avenida do Imperador com Duque de Caxias.

No lazer das noites de domingo, o jovem Pedro, todo nos trinques, freqüentava as retretas da Polícia Militar nas praças da Fortaleza dos anos 30, programa que pedia uma indumentária caprichada. Naquele tempo, “rapazinho novo sem paletó não arranjava nada”. O costume ficou para sempre. Pedro só se mostra para a sociedade se estiver bem vestido, sempre de calça comprida.

O CASO DO “TACHIMÉTRO”

Em cinco de julho de 1939, e dou dia e mês exatos porque ele me disse de cabeça, entra para a Guarda Estadual de Trânsito, onde fica até se aposentar, em 1968, como inspetor, epíteto que muitos de seus amigos e fãs seguem usando em sinal de respeito, “Inspetor Pedro Nunes”.

Foi na Guarda que se deu o caso do sargento que, lendo para os subordinados as normas do Código de Trânsito, viu a palavra taxímetro e falou “tachimétro”, causando revolta no Pedro de então como no Pedro de agora, que relembra o episódio do superior analfabeto com detalhe e dramaticidade: “Como é que pode, ‘tachimétro’?”. Outra maravilha, a propósito, é que, ao contar essa história tão antiga, o aniversariante ainda recita de cor a tal norma, a seguinte: “Nas cidades cuja população ultrapassar 500 mil habitantes, as autoridades poderão exigir o uso de taxímetro nos carros de aluguel”.

LUCY APARECE NA HISTÓRIA

O trabalho de inspetor o levava a várias cidades, e numa dessas Pedro cruzou o olhar com uma moça bonita de pele alva e olhos verdes, de 20 e poucos anos, que ele já havia visto e admirado durante uma passagem pelo Curu. Era Lucy, moradora de Pentecoste (“a moça mais bem conceituada da cidade”, segundo ela me informa), que estava em Catuana tentando arrumar carona para Fortaleza. E, vejam que coisa, lá vinha o Pedro como passageiro de um caminhão que rumava para a Capital. Ao avistar Lucy se aproximando com cara de quem ia pedir assento, Pedro sentiu a oportunidade única e rapidinho ordenou aos colegas que abrissem lugar no carro.

Vieram lado a lado, conversando até a chegada. Ao descerem, Pedro pediu o endereço de Lucy e lá apareceu na manhã seguinte. Em 1951, dois anos depois do encontro, casam-se na Igreja do Carmo. Hoje vivem rodeados de filhos (nove), netos (mais de 20), bisnetos, agregados, uma ruma de gente, coisa que faz feliz o aniversariante. “Meus filhos me dão vida. Tem gente que acha ruim barulho, grito, menino correndo. Eu acho é bom”.

O SEGREDO PARA CHEGAR AOS 100

Como os aniversários foram muitos e os presentes também, sobretudo roupas, este ano Pedro Nunes antecipou-se e deixou os filhos informados. “Eu já proibi presente, já tenho demais. Só quero ganhar a festa, os parabéns e o churrasco”. Pergunto qual é segredo para chegar ao centenário, para vender a fórmula e ficar rico, e ele faz gaiatice. “Muita gente tem me perguntado isso. Não tem segredo não. O segredo é não se suicidar”. E não é verdade? Querer viver é tudo.

20 de junho de 2011

A liberdade das vadias

Meu artigo no jornal O Estado

Já que o Supremo Tribunal Federal liberou as marchas dos maconheiros com o argumento de que a liberdade de expressão e reunião abarca tais manifestações, foi com o estandarte da liberdade que “ativistas” se exibiram para as câmeras de TV em mais de 40 cidades do país no último sábado, incluindo Fortaleza.

Ativistas entre aspas porque foi assim que o Jornal Nacional os chamou (devem ser colegas do Cesare Battisti). O assunto dá preguiça, então o ignoro e passo a um tema um pouco menos entediante. Além de maconheiros, as marchas reuniram feministas. Foram fazer o quê? Lutar contra o machismo, naturalmente. Umas sete ou oito mulheres jovens de classe média pra cima vestiram-se de prostitutas. Duas ou três descartaram o último resquício de caretice e desfilaram logo com os peitos de fora, garantindo imagens transgressoras para o Facebook.

A coisa se chama marcha das vadias. É a última invenção das feministas, essas criaturas adoráveis que lutam contra o que não existe mais. O caso que as motivou, em suma, é o seguinte: um policial do Canadá disse que muitos estupros poderiam ser evitados se as mulheres não se vestissem como "vadias", no termo dele. Imediatamente a consciência politicamente correta da mulherada crispou-se de revolta contra o porco-chauvinista.

E então as feministas do Canadá marcharam seminuas, saias berrantes, maquiagem aloprada, numa encenação de meretrício, fingindo-se de autênticas vadias e exigindo o respeito masculino enquanto tais. Ah, quantas não ferviam de gratidão íntima para com o policial que lhes ofereceu o pretexto para o teatrinho!

Ato contínuo, outras passeatas foram organizadas no mundo ocidental, onde as mulheres já têm a liberdade que fingem não ter, e têm há muito tempo . "A gente quer lutar pelo direito de ir e vir na rua sem ser atacada por estar usando uma roupa curta", informou aos telespectadores do Jornal Nacional uma participante da marcha das vadias de Belo Horizonte, com expressão de pessoa inteligente.

Imediatamente fui à minha janela e fiquei aguardando que lá embaixo, na rua, passasse uma mulher. Não demorou a aparecer uma, e eu logo temi por sua integridade, pois a qualquer momento ela seria surpreendida por um homem que inevitavelmente a estupraria. Acompanhei sua caminhada com uma angústia crescente, até que não pude me conter. "Sai daí, sai daí", berrei da janela, “todo homem é estuprador, corre!”. Com o apelo tentei limpar a imagem do meu gênero, mas foi em vão. A mulher já estava longe demais para ouvir. "Com certeza foi atacada ao dobrar a esquina", pensei impotente.

13 de junho de 2011

Esquerda assassina

Meu artigo no jornal O Estado

Palavras de Nelson Rodrigues: “Conhecíamos o canalha, o mentiroso, o vampiro de Düsseldorf. Todos os pulhas de todos os tempos e de todos os idiomas, mas, ainda assim, homens. O comunismo inventou alguém que não é homem. Para o comunista, o que nós chamamos de dignidade é um preconceito burguês. Para o comunista, o pequeno-burguês é um idiota absoluto justamente porque tem escrúpulos”.

Não há mais manifestação mais escancarada da orgulhosa falta de escrúpulos dessa escória do que o seu orgasmo ante a soltura de Cesare Battisti. E nada mostra com mais clareza o sucesso da estratégia de Antonio Gramsci do que o respeitoso tratamento de “ativista” dispensado a Battisti pela nossa classe dita letrada, que jamais chamará um assassino de assassino se ele tiver assassinado para construir o outro mundo possível.


Para o vice-líder da bancada do PT na Câmara, Fernando Ferro, "quando o presidente Lula concedeu o asilo a Battisti, reafirmou o sentido da soberania e da autodeterminação do povo brasileiro”. Tese referendada por seis ministros do Supremo Tribunal Federal, segundo os quais devemos botar um assassino na rua só para mostrar ao mundo que nós podemos.

O mesmo Fernando Ferro disse que a oposição, ao criticar a decisão do STF, "mostra que é subalterna a um governo decadente como o do primeiro-ministro Silvio Berlusconi e mostra que é colonizada". Quem quase usou essas palavras foi o ministro Joaquim Barbosa, que soltou Battisti para peitar uma “potência estrangeira”.

Um manifesto do esquerdista Dalmo de Abreu Dallari em defesa de Battisti, publicado no site do PSOL, foi subscrito pelos rappers B. Negão e Gog, o teatrólogo porra-louca José Celso Martinez, o barão do MST João Pedro Stedile, o comunista de batina Frei Betto e Chico César (aquele do Mama África), entre outras personalidades de notável saber jurídico.


O PSOL aliás tem entre os seus fundadores o também italiano Achille Lollo, que também matou pelo bem da humanidade, e matou crianças. Em 1973, Lollo e dois colegas da organização Poder Operário derramaram gasolina por baixo da porta e incendiaram o apartamento onde morava o gari Mario Mattei, membro de um partido fascista, a esposa e seis filhos. O casal e quatro filhos conseguiram escapar do fogo. Os outros dois morreram abraçados e carbonizados.

No desprezo ao que chamam de moral burguesa, esses “ativistas”, Lollo e Battisti, não se conformaram com palavrórios de palanque e passaram do discurso ao ato, executando seres humanos como quem prepara o advento do paraíso terrestre. São heróis para os esquerdistas porque mataram e justamente por isso.

12 de junho de 2011

Observe a manipulação

A cena é da novela “Insensato Coração”, a mais vista da Globo. Num quiosque de praia freqüentado pelos gays da trama, o atendente narra o drama de um amigo seu, também gay, agredido por “pitboys”. Escutam o relato Suely e Nelson. Suely pergunta:

- E ele teve que ir pro hospital?

- Ah, Suely... Mandíbula fraturada, três dentes quebrados, cheio de hematomas pelo corpo. Gente, escapou de um traumatismo craniano por pouco!, conta o atendente. Suely comenta:

- Meu Pai, mas que horror essa briga de.

O atendente corta a frase de Suely. Ela mostrou que não tem televisão em casa, pois se acompanhasse as novelas e jornais da Globo já teria concluído, sem necessidade de informações complementares, que estamos diante de mais um caso de “homofobia”, essa epidemia que toma conta do Brasil. O atendente corrige a inocente mulher:

- Que briga, Suely? Massacre! Meu amigo tava saindo de um bar sozinho à noite, de repente apareceu esse bando de pitboys e saíram agredindo o garoto. Uma covardia!

O atendente acrescenta que o agredido não quis registrar a ocorrência na delegacia, “porque ele é gay e tem medo que façam chacotas, e fazem, né?”. Nelson afirma então que é importante divulgar o incidente para “reforçar as estatísticas para pressionar mais”. Quem deve ser pressionado ele não diz, mas o mais burro dos militantes sabe que o recado é endereçado a Brasília.

- Eu fico maluco com isso, gente!, continua o atendente - Só no ano passado foram assassinados 260 gays, lésbicas e travestis no Brasil todo. Quase um por dia!

Como em toda peça de engenharia psicológica, é preciso mostrar que o senso de percepção básica das pessoas está errado e substituí-lo pelo dogma da militância. É para isso que Suely está lá. Ao ouvir a estatística, ela lastima: “É, a violência tá demais mesmo...”. E então o gay do quiosque corrige a mulher mais uma vez:

- Não, Su, não se trata disso. Eu não tô falando de gays que foram assassinados por um motivo ou por outro. Eu tô falando de pessoas que foram assassinadas especificamente porque eram gays!

E então os três fazem caras sensibilizadas com a barbárie. O serviço está feito. Muitos dos milhões de espectadores da novela estão prontos para aplaudir o PLC 122 sem conhecer seu conteúdo, mas confiantes de que 260 gays deixarão de morrer todo ano quando a militância “pressionar mais” e obter vitória no Senado. Os que objetarem à lei serão vistos como potenciais agressores.

A estratégia da militância gay, com suas cifras misteriosas, discursos histéricos e encenações autovitimizantes, é como a novela da Globo: ficção para pessoas de baixa imunidade intelectual, facilmente moldáveis.

8 de junho de 2011

Entrevista com Ricardo Marques: “Ser contra o PLC 122 não é homofobia”

Foto: Anderson Santiago
No jornal O Estado em 06.06, por mim e pelo Rodolfo Oliveira

A verdadeira homofobia pode ser enfrentada, mas, se aprovado, o PLC 122, que torna crime qualquer crítica aos homossexuais, “cria uma casta intocável”. Repetindo o que têm dito diversos juristas no país, assim opina Ricardo Marques, psicanalista clínico, biólogo e membro da Igreja Batista Central de Fortaleza.

De autoria da ex-deputada petista Iara Bernardi, o PLC 122 condena à prisão quem praticar “qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica” contra homossexuais. Aprovado em 2006 na Câmara, enfrenta resistência no Senado, onde foi arquivado ao fim da legislatura passada. A senadora petista Marta Suplicy, porém, conseguiu desarquivá-lo e trabalha para aprová-lo.

“É importante mostrar para a sociedade e para as próprias pessoas homossexuais que o posicionamento contrário a projetos como o PLC 122 não representa combate contra os homossexuais, que merecem respeito e consideração. O real problema gira em torno de políticas ideológicas impostas, injustas e persecutórias, que visam um estado de direito para um grupo em detrimento dos direitos fundamentais de todos os demais cidadãos”, diz Ricardo Marques.

O Estado: Para defender a aprovação do PCL 122 a militância gay tem usado estatísticas de homossexuais assassinados no Brasil como evidência de que o país está mergulhado em crimes de homofobia. Isso tem fundamento?

Ricardo Marques: Não sou especialista no assunto, mas tenho lido documentos de especialistas revelando que o governo não tem estatísticas oficiais sobre isso; os números usados para promover a idéia de uma “epidemia homofóbica” no país, a fim de justificar leis especiais de proteção aos homossexuais, têm sido produzidos por um grupo homossexual da Bahia. O movimento ativista LGBT, que nem sempre conta com a simpatia de todos os homossexuais, diz que foram assassinados cerca de 3.448 homossexuais nos últimos 20 anos, isso num país onde são registrados cerca de 50.000 homicídios por ano. Primeiro, não sabemos se o número produzido por eles é real, pois a fonte é suspeita; segundo, se estão corretos, não são representativos de um “holocausto homofóbico”, diante da multidão de assassinatos de todos os tipos de pessoas que ocorre aqui diariamente; terceiro, ainda que os números fossem representativos, a militância omite que grande parte desses 3.448 assassinatos de LGBT nos últimos 20 anos é cometida por outros homossexuais, em crimes passionais, ou pelas mesmas causas pelas quais são mortos heterossexuais, como latrocínio, brigas, drogas, etc.; grande parte dos homicídios de travestis dizem respeito a disputas por pontos de prostituição, problemas com drogas e tráfico, entre outros.

A própria estatística da militância revela que “gay morre dentro de casa e travesti morre na rua”, demonstrando que a maioria dos assassinatos de gays e lésbicas é crime passional, e dos travestis, relacionados aos fatores de risco da prostituição. Os militantes também informam que muitos dos assassinos são “profissionais do sexo”, indicando que as mortes não são por homofobia, mas pelas condições inerentes aos próprios relacionamentos conflituosos de parcela dos LGBT e ao envolvimento desta com práticas e ambientes de alto risco. São comparativamente poucos os casos de assassinatos por real homofobia, isto é, violência e ódio a homossexuais. Curiosamente, é tudo desconsiderado pela militância, com estranho apoio da Secretaria de Direitos Humanos, ao classificarem qualquer assassinato como crime de homofobia. A quem interessa manipular essas informações?

O Artigo 16º do PLC 122 prevê prisão e multa para quem praticar “qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica” contra homossexuais. Que conseqüências negativas essa lei pode trazer?

O que significa “ação constrangedora”? Pode ser qualquer coisa. Todos sofremos algum tipo de constrangimento na vida e lidamos com isso com naturalidade, faz parte do viver em sociedade; e para constrangimentos graves já existe legislação em defesa de qualquer cidadão, independente de sua sexualidade. Mas sob o PLC 122 qualquer situação em que um homossexual se sinta constrangido será considerada crime. Um homossexual pode se dizer constrangido se um pastor ou um padre ler partes da Bíblia onde Deus diz que o ato homossexual é pecado; pode alegar constrangimento até se alguém simplesmente olhar para ele de forma que julgue ser “preconceituosa”. Quem dará a interpretação? Mesmo que um juiz tenha discernimento na aplicação da lei, o réu que for acusado levianamente já terá sofrido prejuízos irreversíveis antes de sair a sentença. Observe que o art. 16 começa falando de prisão e multa para quem praticar “ato de violência”, para em seguida pôr no mesmo nível da violência o constrangimento, o vexame e assim por diante. O texto é construído de modo a induzir as pessoas a fixar atenção no combate à violência – todos combatemos a violência – para, assim, se sentirem impelidas a apoiar toda a parte restante do PLC, que é injusta e intolerante.

Além do PLC 122, quais são as ações do governo federal em prol do movimento gay?

Além do PLC 122 e de leis estaduais e municipais, há o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT. Se implementado, tornaria o PLC 122 coisa de criança – exige a desconstrução da heteronormatividade, cotas para homossexuais, programa primeiro emprego para LGBT, reforma agrária para LGBT, “bolsa gay”, criação de polícia gay, etc. Há também o Plano Nacional dos Direitos Humanos-3 (PNDH-3), contendo diversos privilégios especiais para pessoas LGBT e igualmente intolerante e persecutório. A situação ficará de um jeito que o assédio sexual de uma mulher por um homem, no trabalho, continuará podendo ser punido; mas se o assediador for um homossexual, corre-se o risco de a coisa inverter-se e a vítima do assédio ser demitida ou o próprio empregador ser punido, entre outras aberrações. Já temos sabido de injustiças decorrentes do medo que as ameaças dos militantes têm causado, a exemplo de conhecidos que estão vendendo seu apartamento porque os novos vizinhos, gays, fazem orgias e farras com janelas abertas e muito barulho, e os inquilinos temem denunciá-los e serem acusados de homofobia. Se os vizinhos farristas e promíscuos fossem heterossexuais, como poderia ocorrer, a denúncia seria considerada normal.

A ação da militância gay busca o poder político?

Certamente. Não apenas o poder no sentido político-partidário e dos cargos de autoridade, a exemplo do Jean Willys (PSOL-RJ), ex-BBB e eleito deputado por ser um homossexual famoso, justo num país que eles dizem ser o mais homofóbico do mundo; mas um projeto de poder mais complexo, de moldar a sociedade e suas leis de forma a colocar a militância de um grupo específico de pessoas acima dos demais cidadãos, tornando-se uma casta intocável. Nada a ver com os homossexuais em si, muitos dos quais se sentem bem inseridos e aceitos na sociedade, e se contrapõem à agressiva e intolerante agenda do movimento ativista; eles reclamam que tal agenda tem acirrado desnecessariamente os ânimos, fazendo pessoas crerem erroneamente que todo gay ou lésbica é conivente com a censura, ameaça e perseguição de quem discorda da prática homossexual, mas tolera, respeita e até ama os homossexuais.

O Grupo Gay da Bahia queimou fotos do Papa em frente à Catedral da Sé, no Pelourinho, quando de sua visita ao Brasil em 2007. Será possível criticar um gesto desses com o PLC 122 em vigor?

O Código Penal diz que atos ofensivos à fé e até a objetos de culto religioso constitui-se em crime. Qualquer pessoa que queimasse a foto do líder máximo do catolicismo romano, a maior religião do Brasil em número de fiéis, poderia ter sido presa. Mas quem fez isso foram militantes homossexuais; aí, nesse caso, os católicos que agüentem. Ofensa só é crime quando é contra LGBT? É isso que heterossexuais e homossexuais deste país estão tentando mostrar: está-se criando um estado de exceção de direito que não deveria existir, e as bases apresentadas para esse estado são falaciosas e manipuladas. Enquanto militantes LGBT queimaram, impunes, a foto do papa em praça pública, gritando palavras de ordem contra a religião católica, em Campina Grande alguns evangélicos colocaram pacificamente outdoors com um versículo do livro de Gênesis: “E Deus fez o homem e a mulher e viu que isso era bom”. Imediatamente militantes LGBT protestaram, entrando com um processo na Justiça acusando os evangélicos de ato homofóbico e incitação ao ódio. Pasmem: a juíza mandou tirar os outdoors. Isso é democracia? É combate à intolerância? Não é. O fato é que a maioria dos homossexuais se tornou massa de manobra de uma ideologia política extremista. Um simples olhar na história e facilmente se vê que essas mesmas estratégias de manipulação foram usadas para legitimar todas as ditaduras: repete-se algumas mentiras até que se tornem verdades, depois legitima-se os interesses de um grupo específico através de leis aceitas e aprovadas pela desinformação e pelo engano, até que se instale um estado de controle social e patrulhamento em que o grupo dominador se posiciona acima dos demais cidadãos, inclusive perseguindo e prendendo quem for considerado inconveniente.

O senhor acha que o PL 122 será aprovado?

Não duvido. O lobby é muito forte, a manipulação e a desinformação são assustadoras. O PL estava arquivado e a Marta Suplicy (PT-SP), assim que eleita, conseguiu assinaturas para desarquivá-lo; para piorar, parte dos parlamentares contrários ao projeto está aceitando que ele vá adiante, desde que sejam alterados alguns itens. Nesse ponto, prefiro a linha do senador Magno Malta (PR-ES): o PL 122 tem de ser sepultado, pois o projeto como um todo é ruim. É importante mostrar para a sociedade e para as próprias pessoas homossexuais que o posicionamento contrário a projetos como o PLC 122 não representa combate contra os homossexuais, que merecem respeito e consideração. O real problema gira em torno de políticas ideológicas impostas, injustas e persecutórias, que visam um estado de direito para um grupo em detrimento dos direitos fundamentais de todos os demais cidadãos. Há juristas declarando não somente a inconstitucionalidade do PLC 122, mas também a injustiça que representa em um estado democrático. São taxativos: esse projeto mata todos os direitos fundamentais da Carta Magna. Rasga a Constituição e a coloca como mero objeto de enfeite.

7 de junho de 2011

Charlie Watts, 70 anos

Meu artigo no jornal O Estado

Charlie Robert Watts concluiu os estudos na Harrow Art School em 1960 e arrumou emprego numa agência de publicidade, reservando uma ou duas noites por semana para tocar bateria em conjuntos da capital inglesa, o que ele fazia como hobby de um apaixonado pelo jazz.

Sua reputação logo se espalhou, e em 1962 foi convocado para a banda de Alexis Korner, a Blues Incorporated, berço de muitos blueseiros do reino. Mas tornou-se difícil conciliar música e trabalho, e ele, tendo que optar, largou a banda e ficou com o salário da agência. Deixara porém uma forte impressão nuns cabeludos que vinham observando sua performance e pediam que ele assumisse em tempo integral as baquetas de uma bandinha de rhythm and blues.

“Eles eram um bando de malucos que viviam tocando sem ganhar um tostão. Mas eu gostava do espírito da banda, daquele jeito deles. E eu já estava totalmente envolvido com o rhythm and blues. Ainda que fosse uma coisa incerta, resolvi correr o risco e fui tocar com eles”. E então Charlie Watts dava o primeiro passo na trilha que o elevaria ao zênite do rock na companhia daquele bando de malucos – os Rolling Stones.

Ainda me lembro de como achei curioso ver aquele senhor exercendo sua profissão. Era 4 de fevereiro de 1995, um domingo. Eu, um menino de 10 anos. Ele, passando dos 50. Um velho, portanto. A Globo exibiria ao vivo o segundo show dos Stones no Rio, turnê do disco Voodoo Lounge, com o qual a banda veio ao Brasil pela primeira vez, gerando a natural excitação. Eu intuía que algo de grandioso aconteceria. Liguei a TV e esperei para ver e crer.

O Maracanã lotado urrava de ânsia quando surgiram os primeiros batuques da bateria. Mick Jagger entrou pavoneando-se e o show começou com Not Fade Away. Depois do cantor e dos guitarristas, a câmera mostrou Charlie. Ele não tinha nada do que se imagina de um baterista de rock. Não fazia caretas nem parecia se esforçar. Mantinha uma postura elegante. Vestia uma roupa normalíssima. Era o único da banda com cabelo branco, e segurava a baqueta esquerda de um jeito peculiar, perpendicular ao antebraço, à moda dos bateristas de jazz.

Ele completou 70 anos na semana passada e ainda está tocando, bem como sempre. Muita coisa já foi dita em louvor a esse senhor discreto, dono de um extraordinário senso de ritmo e gradação, casado com a mesma mulher há 47 anos, criador de cavalos, sempre trajando ternos bem cortados, e que depois de tanta estrada ainda fica encabulado quando o cantor o apresenta ao público. Mick Jagger e Keith Richards já testificaram: sem Charlie Watts não haveria Rolling Stones. É a verdade pura e simples, e dá a medida da nossa gratidão.

Observe o mestre:

2 de junho de 2011

Nefelibatismo perverso

Meu artigo no jornal O Estado

Para transformar a Raposa Serra do Sol num país dentro do Brasil onde só índios pudessem habitar, a Fundação Ford abriu o cofre e a esquerda promoveu a agitação de sempre, obtendo do Supremo Tribunal Federal a expulsão dos brancos da reserva - território de 1,7 milhão de hectares no estado de Roraima, dos quais os fazendeiros geradores de comida e emprego para os brasileiros ocupavam apenas um por cento.

Os brancos e seus apetrechos demoníacos como tratores, semeadoras, comércio e dinheiro foram enxotados da reserva, e com eles a corrupção do capital. Quanta alegria dos ongueiros financiados do exterior. "Vai virar um paraíso rousseauniano!", comemorava a esquerda. E o que aconteceu de fato pode ser conhecido agora, dois anos depois, pelo relato do jornalista Leonardo Coutinho, na revista Veja desta semana, edição 2219:

“Quatro novas favelas brotaram na periferia de Boa Vista, nos últimos dois anos. O surgimento de Monte das Oliveiras, Santa Helena, São Germano e Brigadeiro coincide com a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol. Nesse território de extensão contínua que abarca 7,5% de Roraima, viviam 340 famílias de brancos e mestiços. Em sua maioria, eram constituídas por arrozeiros, pecuaristas e pequenos comerciantes, que respondiam por 6% da economia do estado (...) Empregavam índios e compravam as mercadorias produzidas em suas aldeias, como mandioca, frutas, galinhas e porcos. Em 2009, todos foram expulsos (...) Os novos sem-terra iniciaram o êxodo em direção à capital”.

Continua a revista: “Em seguida, foi a vez de os índios migrarem para a capital de Roraima. Os historiadores acreditam que eles estavam em contato com os brancos havia três séculos. Perderam sua fonte de renda, proveniente de empregos e comércio, depois que os fazendeiros foram expulsos. A situação piorou com a ruína das estradas e pontes, até então conservadas pelos agricultores (...) Um milhar de índios se instalou nas novas favelas de Boa Vista (...) Recentemente, algumas das famílias desaldeadas começaram a erguer barracos no aterro sanitário de Boa Vista (...) Brancos e mestiços expulsos da reserva também foram jogados na pobreza. O pecuarista Wilson Alves Bezerra, de 69 anos, tinha uma fazenda de 50 quilômetros quadrados na qual criava 1.300 cabeças de gado (...) Falido, ele sobrevive vendendo churrasquinho no centro de Boa Vista”.

Os esquerdistas provaram que gostam dos pobres tanto quanto alardeiam: transformaram trabalhadores assalariados de Roraima em favelados e mendigos, garantindo-lhes o direito de serem pobres numa reserva de miséria igualitária.

"Eu faço rebeldia"

Artigo do meu amigo Rodolfo OliveiraO Estado

Domingo de manhã. O sol espanta a minha preguiça e, mesmo ressacado, resolvo ir à banca de revista da esquina. Dois quarteirões de caminhada. “Preciso de um esporte”, penso para consolar-me. Lá chegando, passo os olhos pelas publicações dispostas e logo minha vista repousa sobre uma certa revista cuja edição traz na capa a fotografia do compositor baiano Tom Zé. Abaixo da foto, uma fala: “não faço música, faço rebeldia”. Minha indisposição aumenta consideravelmente. Não, não foi pela caminhada. Foi o efeito Tom Zé mesmo.

Sim, meus senhores, explico-me. Se há algo que me desagrada nestas plagas é o fato de que ninguém aqui faz somente aquilo que deveria supostamente fazer. Um professor, no Brasil, não pode se dar ao luxo de ser apenas professor: ele tem que ser um “agente da conscientização”. Um artesão não é apenas um indivíduo com perícia em trabalhos manuais, é um “mestre da cultura”. Quanto aos pintores, poetas, compositores e cineastas, foi-se o tempo em que eles somente pintavam, escreviam, compunham ou filmavam: todos agora são “agitadores sociais” – seja lá o que diabos isso significa. Mas qual o problema na versatilidade, Rodolfo? Os artistas não são meio camaleônicos? Bem, senhores, o fato é que, na maioria dos casos, essas pessoas mal sabem fazer o que supostamente deveriam estar fazendo, ou seja, quanto pior o compositor, mais “rebeldia” ele produz, quanto pior o professor, mais “cidadania” ele ensina, e assim a coisa vai.

Fico a imaginar o grande Mozart, um dos meus compositores clássicos favoritos, desabafando para o seu círculo íntimo em Viena. “Olha, vocês podem até estar achando que eu estou fazendo música, mas não se enganem: estou a produzir rebeldia”. Mas Rodolfo, e a inovação? Você é contra a inovação? Claro que não. Machado de Assis, o único gênio brasileiro, foi um dos homens mais inovadores de toda a humanidade, mas aqui, há uma grande diferença: montado no ombro de gigantes, Machado fez a si próprio um gigante e soube caminhar, serenamente, para a glória. Os “agitadores sociais” do momento não passam de anões em busca de alguma mamata estatal.

O negócio, agora, é pedir dinheiro público para “obras artísticas” e vendê-las como de interesse social. Caso a sociedade não se interesse – oh, reacionários! –, é só aceitar a grana e sair falando mal do público, “que ainda não está pronto para entender a minha proposta artística”. Há ainda a opção de se fazer uma greve, reivindicando do governo mais atenção (dinheiro). Todavia, se nada der certo, funde uma ONG e vire, da noite para o dia, um especialista em Amazônia.

Rodolfo Oliveira - Jornalista