Artigo em O EstadoSem qualquer constrangimento, usarei o artigo de hoje para conseguir um emprego na comunicação da Petrobras. Além do tremendo calor humano, garantido por mais de 1.000 funcionários, trabalhar naquele setor me permitiria exercitar o jornalismo comprometido com o social, sem falar do orgulho de fazer tudo a serviço do povo.
O artigo de hoje, portanto, me servirá como currículo. Enviarei uma cópia ao senhor Lula, à excelentíssima Dilma e ao doutor Chávez. Vou mostrar que sei agir em defesa da honra desta empresa.
Os safados querem montar uma CPI para desmoralizar a Petrobras. Agem sem pensar nas conseqüências para a imagem do país, ainda mais agora, que o dinheiro do pré-sal será usado para “construir casas, diminuir a pobreza e dar saúde de qualidade igual àquela das camadas mais ricas”, como
assegurou a doutora Dilma em discurso recente no Complexo do Alemão. Tendo em vista esse horizonte promissor, como derrotar os estraga-prazeres? É simples. Basta produzir alguns releases desmascarando os investigadores: são entreguistas inimigos do povo, capachos de forças ocultas que querem pôr as mãos sujas no patrimônio construído com o suor dos brasileiros. Após conferir as frases com o doutor Franklin, os releases devem ser entregues aos jornalistas patrocinados pelo povo brasileiro. O resto do serviço é com eles.
O problema é que a comunicação da Petrobras já deve estar lotada, e, pior ainda, não tenho parentesco biológico ou político com nenhum diretor da empresa. Por isso tentarei a sorte na Associação Brasileira de Imprensa. Ali só tem jornalista comprometido com o social. É só ver pela
nota que a ABI divulgou no último dia 9 a respeito do recém-criado blog da Petrobras:
"A criação do blog constituiu-se em instrumento de autodefesa da empresa, que se encontra sob uma barragem de fogo crítico disparado por vários veículos impressos (...). A Petrobras encontra-se, infelizmente, na linha de tiro do canhoneio contra ela assestado. Atacá-la com a virulência que se anota agora não faz bem ao País".Isso! Isenção e imparcialidade do jeito que o doutor Lula gosta. Quando o suspeito é inimigo do PT, investigar e denunciar são obrigações do jornalista valente. Quando o suspeito é do PT ou agregado, aí o jornalista deve exercer a profissão com temperança, sem conclusões precipitadas, porque, afinal de contas, ele ama o Brasil e os pobres que em breve terão plano de saúde particular graças ao pré-sal. O fato de a ABI ter recebido não sei quantos
milhões de reais da Petrobras ao longo dos últimos três anos é um detalhe insignificante, que não tem nada a ver com sua postura a favor do governo. Dinheiro nenhum pode superar a força de um ideal.
Fico por aqui, sabendo que não conseguirei o emprego. Vocês são testemunhas de que segui as instruções do jornalismo preocupado com o social até o terceiro parágrafo. Quando eu me preparava para terminar o texto, contudo, recebi uma ligação. A voz, com um leve sotaque americano, me ofereceu uma gorda comissão. Isso explica a mudança brusca para o jornalismo golpista no final.