28 de novembro de 2010
23 de novembro de 2010
Censurar é libertar
No blog do Wanfil.
Transformar em lei a ideia de controlar a mídia é o ato derradeiro no processo de ocupação de espaços que teve início no domínio ideológico de universidades e sindicatos.
Transformar em lei a ideia de controlar a mídia é o ato derradeiro no processo de ocupação de espaços que teve início no domínio ideológico de universidades e sindicatos.
18 de novembro de 2010
O DEM precisa ser mais ambicioso
Meu artigo no jornal O Estado
Em dezembro de 2007, só por raiva do operário nordestino que virou presidente, tucanos e democratas e alguns senadores governistas cortaram a CPMF. A verba garantiria a todos os brasileiros uma saúde de qualidade só comparável à de Cuba, onde Fidel Castro, gravemente doente do intestino, preferiu dar um telefonema e importar um médico da Espanha.
Com a CPMF extinta, o senador Francisco Dorneles (PP-RJ) previu um “um caos nas finanças públicas”. Segundo ele, alguns programas sociais seriam prejudicados. “Por exemplo, o Bolsa Família”. Alguns meses depois, o governo aumentou o valor do Bolsa Família em 8%.
A ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, disse que “o presidente Lula já está pensando uma alternativa para superar a incompreensão que alguns senadores tiveram pensando que com a não-votação da permanência da CPMF estavam prejudicando o governo do presidente Lula e não prejudicando a sociedade brasileira”. O dinheiro da CPMF nunca foi usado na saúde. Em vez disso, sustentava cabides como a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
Quem também deu um grave depoimento naquele período foi Aloizio Mercadante (PT-SP). Durante a votação no Senado, quando ele literalmente cuspiu baba na tribuna (podem conferir nas imagens), Mercadante sentenciou: “Cada um que votar contra estará tirando R$ 16 bilhões dos hospitais. Cada um aqui sabe a responsabilidade que é defender a saúde pública”.
Feita a desgraça no Senado, restou ao brasileiro esperar o apocalipse. E então, poucos meses depois, veio a notícia por meio da Receita Federal, órgão também responsável pela violação do sigilo fiscal de inimigos do povo: de janeiro a junho de 2008, o governo arrecadara R$ 327,6 bilhões. Crescimento acima da inflação de R$ 31,4 bilhões sobre os seis primeiros meses de 2007. Dali em diante a arrecadação de impostos bateria outros recordes.
Por sorte, temos uma oposição vigilante, sagaz e altiva, que usou esses dados para desmascarar o governo e... Brincadeira, pessoal. A oposição que temos é o PSDB. Na semana passada, o jornal O Globo perguntou ao presidente do partido, Sérgio Guerra, por que a oposição perdeu mais uma vez. Escutem a resposta: “Vamos ser sinceros. O prestígio e a força de um cidadão brasileiro, pobre, que se constituiu na maior liderança do país: Lula. O resto é conversa”. Guerra está dizendo que Lula é invencível e que o PSDB simulou disputar a Presidência. Assim não pode, assim não dá.
Nas últimas semanas, o DEM, depois de perder sucessivamente em parceria com os tucanos, parece ter finalmente entendido que a teoria política de Sérgio Guerra produzirá mais uma derrota daqui a quatro anos, seguida de uma declaração tucana sobre o prestígio e a força ainda invencíveis de Lula. O melhor que o DEM pode fazer é sair da sombra do PSDB, expulsar os democratas governistas, reformar o partido e atuar como uma frente liberal-conservadora, sem medo de conquistar 70 milhões de votos em 2014 com a chapa Kátia Abreu/Índio da Costa.
Em dezembro de 2007, só por raiva do operário nordestino que virou presidente, tucanos e democratas e alguns senadores governistas cortaram a CPMF. A verba garantiria a todos os brasileiros uma saúde de qualidade só comparável à de Cuba, onde Fidel Castro, gravemente doente do intestino, preferiu dar um telefonema e importar um médico da Espanha.
Com a CPMF extinta, o senador Francisco Dorneles (PP-RJ) previu um “um caos nas finanças públicas”. Segundo ele, alguns programas sociais seriam prejudicados. “Por exemplo, o Bolsa Família”. Alguns meses depois, o governo aumentou o valor do Bolsa Família em 8%.
A ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, disse que “o presidente Lula já está pensando uma alternativa para superar a incompreensão que alguns senadores tiveram pensando que com a não-votação da permanência da CPMF estavam prejudicando o governo do presidente Lula e não prejudicando a sociedade brasileira”. O dinheiro da CPMF nunca foi usado na saúde. Em vez disso, sustentava cabides como a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
Quem também deu um grave depoimento naquele período foi Aloizio Mercadante (PT-SP). Durante a votação no Senado, quando ele literalmente cuspiu baba na tribuna (podem conferir nas imagens), Mercadante sentenciou: “Cada um que votar contra estará tirando R$ 16 bilhões dos hospitais. Cada um aqui sabe a responsabilidade que é defender a saúde pública”.
Feita a desgraça no Senado, restou ao brasileiro esperar o apocalipse. E então, poucos meses depois, veio a notícia por meio da Receita Federal, órgão também responsável pela violação do sigilo fiscal de inimigos do povo: de janeiro a junho de 2008, o governo arrecadara R$ 327,6 bilhões. Crescimento acima da inflação de R$ 31,4 bilhões sobre os seis primeiros meses de 2007. Dali em diante a arrecadação de impostos bateria outros recordes.
Por sorte, temos uma oposição vigilante, sagaz e altiva, que usou esses dados para desmascarar o governo e... Brincadeira, pessoal. A oposição que temos é o PSDB. Na semana passada, o jornal O Globo perguntou ao presidente do partido, Sérgio Guerra, por que a oposição perdeu mais uma vez. Escutem a resposta: “Vamos ser sinceros. O prestígio e a força de um cidadão brasileiro, pobre, que se constituiu na maior liderança do país: Lula. O resto é conversa”. Guerra está dizendo que Lula é invencível e que o PSDB simulou disputar a Presidência. Assim não pode, assim não dá.
Nas últimas semanas, o DEM, depois de perder sucessivamente em parceria com os tucanos, parece ter finalmente entendido que a teoria política de Sérgio Guerra produzirá mais uma derrota daqui a quatro anos, seguida de uma declaração tucana sobre o prestígio e a força ainda invencíveis de Lula. O melhor que o DEM pode fazer é sair da sombra do PSDB, expulsar os democratas governistas, reformar o partido e atuar como uma frente liberal-conservadora, sem medo de conquistar 70 milhões de votos em 2014 com a chapa Kátia Abreu/Índio da Costa.
8 de novembro de 2010
Entrevista com Pedro Henrique Antero: "Oposição atual é lamentável"
Entrevistei o professor Pedro Henrique Antero, em meados de setembro, quando ele anteviu a derrota de José Serra. Voltei a ele para uma nova entrevista, dessa vez acompanhado do meu amigo e colega de profissão Rodolfo Oliveira. Segue o material, publicado hoje, 08 de novembro, no jornal O Estado:
***
Bruno Pontes e Rodolfo Oliveira, da redação
O cientista político Pedro Henrique Antero, 68 anos, é um homem de palavra afiada e responde com sobriedade às questões concernentes ao sistema político-eleitoral brasileiro. “O PSDB sempre se caracterizou pela dubiedade. Nunca teve um comportamento ideológico marcante. É um partido sem cara”, avalia, ao comentar a derrota de José Serra.
Para Antero, a oposição deve exercer com firmeza sua missão institucional, vigiando o futuro governo da petista Dilma Rousseff e apresentando alternativas para a população. “A situação atual da oposição é lamentável. Está marchando para aquilo que o Lula quer. Com uma oposição débil, corremos o risco de ter um governo ditatorial”, adverte na seguinte entrevista:
O Estado – Em meados de setembro, em entrevista a este jornal, o senhor previu a derrota de José Serra contra Dilma Rousseff em função da “fraqueza” e da “ambigüidade” do PSDB. O seu vaticínio se concretizou.
Pedro Henrique Antero - A terceira derrota consecutiva do PSDB à Presidência, a meu ver, se deu por duas razões: primeiro, o PSDB sempre se caracterizou pela dubiedade. Nunca teve um comportamento ideológico marcante, nunca disse que era um partido de esquerda ou de direita. E seus membros, deputados federais e estaduais, em grande parte, foram sempre cooptados pelos governos estaduais e federal do momento. É um partido sem cara. O PSDB nasceu de intelectuais, do tipo de Fernando Henrique Cardoso e outros, sem vinculação com a base da sociedade, como sindicatos, associações, movimentos sociais.
A segunda razão das derrotas é a concentração do PSDB em São Paulo. Não é um partido inteiramente nacional, é um partido paulista com ramificações nos estados. Haja vista o exemplo de Minas Gerais. O PSDB foi derrotado no primeiro e segundo turno em Minas, quando o maior expoente da política mineira é um peessedebista, [o senador eleito] Aécio Neves [Antero se refere à votação de Dilma Rousseff naquele estado]. Por essas duas razões o PSDB teve derrotas sucessivas, e se daqui a quatro anos apresentar outro candidato paulista, desvinculado dos demais estados e das bases sociais, a derrota será a mesma.
O senhor diz que o PSDB é um partido dúbio, sem cara. Essa crítica pode ser estendida a toda a oposição partidária brasileira. O que essa oposição deve fazer para adquirir uma feição e se firmar como opção para o eleitorado?
Falta uma definição doutrinária do que eles [opositores] realmente querem, do que eles entendem ser o ideal para o povo brasileiro. No governo Fernando Henrique, fizeram as privatizações. À época, durante o governo Lula e agora na campanha eleitoral, havia um constrangimento de defender essas privatizações. Por quê? Não estavam convencidos da necessidade das privatizações? Foi uma boa medida para o povo brasileiro, ou não foi? O que o PSDB acha? Não se sabe que o PSDB acha. Há tucanos que criticam e outros que defendem as privatizações. E o partido como um todo, o que pensa? Ninguém sabe direito. A privatização é um exemplo.
Outro exemplo: o problema dos movimentos sociais como o MST. Os tucanos aprovam ou desaprovam o MST? Quando da ocupação pelo MST daquela avenida em frente à Secretaria da Agricultura [avenida Bezerra de Menezes, Fortaleza], eu tive a oportunidade de ouvir de pessoas do PSDB daqui: “Não se pode tocar nessa gente”. Quer dizer, não se pode fazer nada contra esse movimento. Eles são a favor da integridade da propriedade particular ou não? São questões em que o PSDB não se decide.
Além da falta de cara, de feição ideológica da oposição, não faltaria defender a própria história?
Sim. Eu resumiria numa palavra: covardia. O PSDB é um partido covarde. No momento em que percebeu que o Fernando Henrique deixou o governo com uma grande impopularidade, o PSDB se acovardou. Ninguém quis saber mais do que Fernando Henrique fez ou deixou de fazer. Todos procuraram os caminhos do governo, do sucesso, das oportunidades, e deixaram de lado o Fernando Henrique e as boas e más coisas que o governo dele fez. O Plano Real, por exemplo: a grande razão do sucesso do presidente Lula é o Plano Real, a falta da inflação. E o PT foi contra [o plano]. A inflação é o maior inimigo do pobre brasileiro. O PSDB nunca teve a coragem de defender seus pontos positivos e atacar pontos negativos do governo Lula. Por quê? Porque, como eu disse, foram cooptados pelo governo.
O saneamento financeiro do Brasil foi feitos pelos tucanos, quando Fernando Henrique era ministro da Fazenda do governo Itamar Franco. Somente com a queda da inflação foi possível melhorar a vida do pobre. Não foi por outra razão que os pobres melhoraram de vida. Não foi só por causa de Bolsa Família. Ajudou, mas os pobres puderam melhorar de vida basicamente porque os preços das coisas permaneceram mais ou menos estáveis.
Lula investiu sistematicamente contra a oposição durante os oito anos de governo, e nesta campanha declarou que era preciso “extirpar” o DEM da política. Mas não seria o caso de a oposição estar aniquilando a si própria?
A situação atual da oposição é lamentável. Está marchando para aquilo que o Lula quer, ou seja, que ela não exista ou exista de maneira débil, fraca, sem voz. Se isso acontecer, estamos condenados, mais cedo ou mais tarde, a entrar num governo forte, ditatorial, que tentará implantar na legislação brasileira medidas que dêem plenos poderes ao Executivo em prejuízo do individuo e da democracia. Somente se a oposição silenciar é que o governo poderá, por exemplo, passar no Congresso leis que restrinjam a liberdade de imprensa. A não ser que a oposição esteja de acordo com isso.
Lula fez diversos ensaios para ter controle disso e daquilo, da imprensa, do Tribunal de Contas da União (TCU). Mas ele sempre recuou ao sentir a reação da população, porque é um político hábil. Mas essas intenções são subjacentes. Na medida em que a oposição se tornar cada vez mais fraca e silenciosa, essas tentativas de novas leis poderão ter sucesso, e daí por diante o governo agirá de modo legal. Quando a imprensa estiver submetida a uma censura, ou a um conselho, as pessoas não poderão dizer nada, porque será lei. Com uma oposição débil, corremos o risco de ter um governo ditatorial, que vai se estabelecendo pela via legal, pelas Assembléias e pelo Congresso, como faz o Hugo Chávez.
Nem bem se passou uma semana da eleição de Dilma Rousseff e já vimos o PMDB marcando terreno na equipe de transição, por meio do vice-presidente eleito, Michel Temer. O PMDB pode ser uma força de contenção dos impulsos radicais do PT?
Pode sim ser uma força de contenção, pela seguinte razão: o PT jamais poderá dar tudo que o PMDB requer. O PMDB sempre será um descontente em relação ao parceiro. Então no momento em que Dilma Rousseff, o governo ou o PT tentarem enveredar por um caminho menos democrático, o PMDB teria a oportunidade de reagir por conta dos interesses não satisfeitos. O PMDB seria capaz de brecar essas tentativas de radicalização, a não ser que todos os interesses do partido estivessem plenamente satisfeitos, o que não é possível.
Esta eleição terminou com 44% do eleitorado brasileiro contra Lula. O senhor vê representação política para esse contingente opositor?
Vejo, desde que o PSDB procure mudar seu comportamento, sua estratégia de trabalho. Acredito que possa haver opção para esse contingente de eleitores desde que passe a existir no Brasil um partido realmente nacional, como o PT é um partido nacional. É verdade que o PT tem seu ponto forte em São Paulo, mas ele também tem força em Minas, no Rio Grande do Sul. O PSDB, ao contrário, não tem força em outros estados além de São Paulo. Se o PSDB, ou um outro partido, vier a ter força em todo o território nacional, esse partido teria chance de coordenar essa massa de brasileiros que não estão na situação.
Dentro do PSDB vejo que o Aécio Neves é o maior expoente capaz de congregar esses peessedebistas estaduais e tentar fazer desse partido um partido realmente nacional. Fora o Aécio, não vejo, no momento, nenhum político brasileiro com o poder de liderar uma oposição forte. Porque a oposição, de agora em diante, tem que ser vigorosa, marcante, definidora de caminhos. Não é que deva ser uma oposição inimiga do que pode ser feito de bom para o Brasil. Não é isso. Mas, em relação aos temas discordantes, deve ter posições bem claras e honestas, dar alternativas. A oposição precisa ser eternamente crítica em relação aos pontos de que discorda do governo. Se for contra invasão de terra, contra baixar ou subir juros, contra ou a favor de privatizações, isso tem que ser delineado e dito claramente. Se não for assim, nunca sairemos dessa hegemonia do PT que aí está.
Pedro Henrique Antero é professor de Ciência Política, graduado em Filosofia, pós-graduado em Teologia e mestre em Sociologia Política pela Universidade de Sorbonne
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Bruno Pontes e Rodolfo Oliveira, da redação
O cientista político Pedro Henrique Antero, 68 anos, é um homem de palavra afiada e responde com sobriedade às questões concernentes ao sistema político-eleitoral brasileiro. “O PSDB sempre se caracterizou pela dubiedade. Nunca teve um comportamento ideológico marcante. É um partido sem cara”, avalia, ao comentar a derrota de José Serra.
Para Antero, a oposição deve exercer com firmeza sua missão institucional, vigiando o futuro governo da petista Dilma Rousseff e apresentando alternativas para a população. “A situação atual da oposição é lamentável. Está marchando para aquilo que o Lula quer. Com uma oposição débil, corremos o risco de ter um governo ditatorial”, adverte na seguinte entrevista:
O Estado – Em meados de setembro, em entrevista a este jornal, o senhor previu a derrota de José Serra contra Dilma Rousseff em função da “fraqueza” e da “ambigüidade” do PSDB. O seu vaticínio se concretizou.
Pedro Henrique Antero - A terceira derrota consecutiva do PSDB à Presidência, a meu ver, se deu por duas razões: primeiro, o PSDB sempre se caracterizou pela dubiedade. Nunca teve um comportamento ideológico marcante, nunca disse que era um partido de esquerda ou de direita. E seus membros, deputados federais e estaduais, em grande parte, foram sempre cooptados pelos governos estaduais e federal do momento. É um partido sem cara. O PSDB nasceu de intelectuais, do tipo de Fernando Henrique Cardoso e outros, sem vinculação com a base da sociedade, como sindicatos, associações, movimentos sociais.
A segunda razão das derrotas é a concentração do PSDB em São Paulo. Não é um partido inteiramente nacional, é um partido paulista com ramificações nos estados. Haja vista o exemplo de Minas Gerais. O PSDB foi derrotado no primeiro e segundo turno em Minas, quando o maior expoente da política mineira é um peessedebista, [o senador eleito] Aécio Neves [Antero se refere à votação de Dilma Rousseff naquele estado]. Por essas duas razões o PSDB teve derrotas sucessivas, e se daqui a quatro anos apresentar outro candidato paulista, desvinculado dos demais estados e das bases sociais, a derrota será a mesma.
O senhor diz que o PSDB é um partido dúbio, sem cara. Essa crítica pode ser estendida a toda a oposição partidária brasileira. O que essa oposição deve fazer para adquirir uma feição e se firmar como opção para o eleitorado?
Falta uma definição doutrinária do que eles [opositores] realmente querem, do que eles entendem ser o ideal para o povo brasileiro. No governo Fernando Henrique, fizeram as privatizações. À época, durante o governo Lula e agora na campanha eleitoral, havia um constrangimento de defender essas privatizações. Por quê? Não estavam convencidos da necessidade das privatizações? Foi uma boa medida para o povo brasileiro, ou não foi? O que o PSDB acha? Não se sabe que o PSDB acha. Há tucanos que criticam e outros que defendem as privatizações. E o partido como um todo, o que pensa? Ninguém sabe direito. A privatização é um exemplo.
Outro exemplo: o problema dos movimentos sociais como o MST. Os tucanos aprovam ou desaprovam o MST? Quando da ocupação pelo MST daquela avenida em frente à Secretaria da Agricultura [avenida Bezerra de Menezes, Fortaleza], eu tive a oportunidade de ouvir de pessoas do PSDB daqui: “Não se pode tocar nessa gente”. Quer dizer, não se pode fazer nada contra esse movimento. Eles são a favor da integridade da propriedade particular ou não? São questões em que o PSDB não se decide.
Além da falta de cara, de feição ideológica da oposição, não faltaria defender a própria história?
Sim. Eu resumiria numa palavra: covardia. O PSDB é um partido covarde. No momento em que percebeu que o Fernando Henrique deixou o governo com uma grande impopularidade, o PSDB se acovardou. Ninguém quis saber mais do que Fernando Henrique fez ou deixou de fazer. Todos procuraram os caminhos do governo, do sucesso, das oportunidades, e deixaram de lado o Fernando Henrique e as boas e más coisas que o governo dele fez. O Plano Real, por exemplo: a grande razão do sucesso do presidente Lula é o Plano Real, a falta da inflação. E o PT foi contra [o plano]. A inflação é o maior inimigo do pobre brasileiro. O PSDB nunca teve a coragem de defender seus pontos positivos e atacar pontos negativos do governo Lula. Por quê? Porque, como eu disse, foram cooptados pelo governo.
O saneamento financeiro do Brasil foi feitos pelos tucanos, quando Fernando Henrique era ministro da Fazenda do governo Itamar Franco. Somente com a queda da inflação foi possível melhorar a vida do pobre. Não foi por outra razão que os pobres melhoraram de vida. Não foi só por causa de Bolsa Família. Ajudou, mas os pobres puderam melhorar de vida basicamente porque os preços das coisas permaneceram mais ou menos estáveis.
Lula investiu sistematicamente contra a oposição durante os oito anos de governo, e nesta campanha declarou que era preciso “extirpar” o DEM da política. Mas não seria o caso de a oposição estar aniquilando a si própria?
A situação atual da oposição é lamentável. Está marchando para aquilo que o Lula quer, ou seja, que ela não exista ou exista de maneira débil, fraca, sem voz. Se isso acontecer, estamos condenados, mais cedo ou mais tarde, a entrar num governo forte, ditatorial, que tentará implantar na legislação brasileira medidas que dêem plenos poderes ao Executivo em prejuízo do individuo e da democracia. Somente se a oposição silenciar é que o governo poderá, por exemplo, passar no Congresso leis que restrinjam a liberdade de imprensa. A não ser que a oposição esteja de acordo com isso.
Lula fez diversos ensaios para ter controle disso e daquilo, da imprensa, do Tribunal de Contas da União (TCU). Mas ele sempre recuou ao sentir a reação da população, porque é um político hábil. Mas essas intenções são subjacentes. Na medida em que a oposição se tornar cada vez mais fraca e silenciosa, essas tentativas de novas leis poderão ter sucesso, e daí por diante o governo agirá de modo legal. Quando a imprensa estiver submetida a uma censura, ou a um conselho, as pessoas não poderão dizer nada, porque será lei. Com uma oposição débil, corremos o risco de ter um governo ditatorial, que vai se estabelecendo pela via legal, pelas Assembléias e pelo Congresso, como faz o Hugo Chávez.
Nem bem se passou uma semana da eleição de Dilma Rousseff e já vimos o PMDB marcando terreno na equipe de transição, por meio do vice-presidente eleito, Michel Temer. O PMDB pode ser uma força de contenção dos impulsos radicais do PT?
Pode sim ser uma força de contenção, pela seguinte razão: o PT jamais poderá dar tudo que o PMDB requer. O PMDB sempre será um descontente em relação ao parceiro. Então no momento em que Dilma Rousseff, o governo ou o PT tentarem enveredar por um caminho menos democrático, o PMDB teria a oportunidade de reagir por conta dos interesses não satisfeitos. O PMDB seria capaz de brecar essas tentativas de radicalização, a não ser que todos os interesses do partido estivessem plenamente satisfeitos, o que não é possível.
Esta eleição terminou com 44% do eleitorado brasileiro contra Lula. O senhor vê representação política para esse contingente opositor?
Vejo, desde que o PSDB procure mudar seu comportamento, sua estratégia de trabalho. Acredito que possa haver opção para esse contingente de eleitores desde que passe a existir no Brasil um partido realmente nacional, como o PT é um partido nacional. É verdade que o PT tem seu ponto forte em São Paulo, mas ele também tem força em Minas, no Rio Grande do Sul. O PSDB, ao contrário, não tem força em outros estados além de São Paulo. Se o PSDB, ou um outro partido, vier a ter força em todo o território nacional, esse partido teria chance de coordenar essa massa de brasileiros que não estão na situação.
Dentro do PSDB vejo que o Aécio Neves é o maior expoente capaz de congregar esses peessedebistas estaduais e tentar fazer desse partido um partido realmente nacional. Fora o Aécio, não vejo, no momento, nenhum político brasileiro com o poder de liderar uma oposição forte. Porque a oposição, de agora em diante, tem que ser vigorosa, marcante, definidora de caminhos. Não é que deva ser uma oposição inimiga do que pode ser feito de bom para o Brasil. Não é isso. Mas, em relação aos temas discordantes, deve ter posições bem claras e honestas, dar alternativas. A oposição precisa ser eternamente crítica em relação aos pontos de que discorda do governo. Se for contra invasão de terra, contra baixar ou subir juros, contra ou a favor de privatizações, isso tem que ser delineado e dito claramente. Se não for assim, nunca sairemos dessa hegemonia do PT que aí está.
Pedro Henrique Antero é professor de Ciência Política, graduado em Filosofia, pós-graduado em Teologia e mestre em Sociologia Política pela Universidade de Sorbonne
José Serra, o esquerdista
Meu artigo no jornal O Estado
Em julho passado, Marco Aurélio Garcia chamou José Serra de “troglodita de direita”. Isso porque o candidato tucano andava proferindo levíssimas críticas à política externa do governo Lula, a qual consiste em se irmanar com a bandidagem internacional, do matador de opositores e judeus Mahmoud Ahmadinejad aos seqüestradores e assassinos das Farc.
“Fico constrangido de ver uma pessoa que teve um passado de esquerda como o José Serra correr tanto em direção à direita. Daquela direita mais raivosa, mais atrasada. Me parece um final melancólico da sua carreira política, porque eu acho que a sua carreira política terminará no dia 3 de outubro”, disse Garcia.
Acusado de apostasia ideológica, Serra devolveu a ofensa repugnante: “Troglodita de direita é quem apóia o Ahmadinejad, um sistema que mata mulheres, uma ditadura que prende jornalistas, enforca opositores”. O mundo ouviu surpreso. De acordo com Serra, são direitistas os seguintes elementos: Hugo Chávez, Evo Morales, Vladimir Putin, Kim Jong-il, Robert Mugabe e Lula.
Preocupado em deixar claro que é uma pessoa decente, o tucano reiterou ser de esquerda e explicou por quê: “Para mim, falar de esquerda é falar de direitos humanos, e falar de políticas efetivamente populares, com políticas que façam bem para as pessoas a médio e longo prazo”.
Dali em diante Serra continuaria a exalar bom-mocismo esquerdista até perder a eleição. Na última sexta-feira, discursando no encerramento do XI Fórum de Biarritz, na França, Serra informou ao público que o governo Lula vem negligenciando os investimentos públicos e praticando “populismo cambial”. Portanto, adivinhem! “É um governo populista de direita em matéria econômica”.
Esta campanha presidencial evidenciou o domínio da esquerda na esfera dos valores. Somos ensinados, nos jornais, nas salas de aula, nas conversas inteligentes, que o bem e o bonito são de esquerda e tudo que é ruim e desagradável vem da direita. É assim que a intelectualidade brasileira delineia os campos políticos e, como demonstram palavras e gestos, é o que prega o esquema mental do tucano vencido.
A exemplo de Dilma Rousseff, ou até mais do que ela, Serra gabou-se perante os eleitores de ter prestado serviços à esquerda. Da primeira à última propaganda, lá estava o destaque curricular: “foi presidente da UNE, foi perseguido pela ditadura, teve que se exilar, blábláblá”. Durante os seis meses de sua campanha guiada pela correção politica, Serra não fez uma menção sequer ao PNDH 3. Ao fim da última grande exposição televisiva, na hora de fixar a mensagem final para os telespectadores da Globo que em breve iriam às urnas, Serra achou por bem salientar a casinha humilde, a UNE, a ditadura, o exílio...
Em julho passado, Marco Aurélio Garcia chamou José Serra de “troglodita de direita”. Isso porque o candidato tucano andava proferindo levíssimas críticas à política externa do governo Lula, a qual consiste em se irmanar com a bandidagem internacional, do matador de opositores e judeus Mahmoud Ahmadinejad aos seqüestradores e assassinos das Farc.
“Fico constrangido de ver uma pessoa que teve um passado de esquerda como o José Serra correr tanto em direção à direita. Daquela direita mais raivosa, mais atrasada. Me parece um final melancólico da sua carreira política, porque eu acho que a sua carreira política terminará no dia 3 de outubro”, disse Garcia.
Acusado de apostasia ideológica, Serra devolveu a ofensa repugnante: “Troglodita de direita é quem apóia o Ahmadinejad, um sistema que mata mulheres, uma ditadura que prende jornalistas, enforca opositores”. O mundo ouviu surpreso. De acordo com Serra, são direitistas os seguintes elementos: Hugo Chávez, Evo Morales, Vladimir Putin, Kim Jong-il, Robert Mugabe e Lula.
Preocupado em deixar claro que é uma pessoa decente, o tucano reiterou ser de esquerda e explicou por quê: “Para mim, falar de esquerda é falar de direitos humanos, e falar de políticas efetivamente populares, com políticas que façam bem para as pessoas a médio e longo prazo”.
Dali em diante Serra continuaria a exalar bom-mocismo esquerdista até perder a eleição. Na última sexta-feira, discursando no encerramento do XI Fórum de Biarritz, na França, Serra informou ao público que o governo Lula vem negligenciando os investimentos públicos e praticando “populismo cambial”. Portanto, adivinhem! “É um governo populista de direita em matéria econômica”.
Esta campanha presidencial evidenciou o domínio da esquerda na esfera dos valores. Somos ensinados, nos jornais, nas salas de aula, nas conversas inteligentes, que o bem e o bonito são de esquerda e tudo que é ruim e desagradável vem da direita. É assim que a intelectualidade brasileira delineia os campos políticos e, como demonstram palavras e gestos, é o que prega o esquema mental do tucano vencido.
A exemplo de Dilma Rousseff, ou até mais do que ela, Serra gabou-se perante os eleitores de ter prestado serviços à esquerda. Da primeira à última propaganda, lá estava o destaque curricular: “foi presidente da UNE, foi perseguido pela ditadura, teve que se exilar, blábláblá”. Durante os seis meses de sua campanha guiada pela correção politica, Serra não fez uma menção sequer ao PNDH 3. Ao fim da última grande exposição televisiva, na hora de fixar a mensagem final para os telespectadores da Globo que em breve iriam às urnas, Serra achou por bem salientar a casinha humilde, a UNE, a ditadura, o exílio...
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