Uma coisa morta pode seguir com a corrente, mas só uma coisa viva pode ir contra ela. G. K. Chesterton


23 de março de 2010

Por falta de assunto, mais um sobre aquecimento global

O Estado, 23/03/2010

A situação está ficando temerosa. Meus oito leitores enviam cartas suplicando que eu mude de assunto. A mais recente diz assim: "Bruno, já captamos a mensagem. Sabemos que a ONU quer controlar a economia mundial. Pelo amor de Deus, pensa em outra coisa quando for escrever. O mundo é cheio de temas. Não dá mais para aturar o aquecimento global. Considere minhas palavras, que saem das mãos de quem te quer bem".

Entendo perfeitamente as queixas. Acho que mereço a chance de me explicar. O cotidiano do articulista brasileiro (falo em nome de todos eles) é dureza. Perguntem ao meu amigo Wanderley Filho, que também se pronuncia nesta página. Às vezes, o assunto simplesmente não vem. E quando vem, o tempo necessário para elaborá-lo não existe; está sendo gasto com o trabalho propriamente dito, o labor que rende dinheiro.

Vejam o meu caso. Cheguei à redação e lembrei que tinha um artigo para fazer. Quando escrevo esta frase, são 10 para cinco da tarde. Devo entregar as 30 linhas até as cinco horas, cinco e meia, por aí. Compreendem o drama? Os mais astutos, aliás, devem ter notado que o desabafo que se estende até aqui, fútil como o diabo, foi expresso com o único e descarado propósito de preencher lauda.

Como Raul Seixas, tentei outra vez. Não é possível que nada de interessante tenha acontecido hoje. Acessei a página de últimas notícias do Estadão: "vice-governador do RN luta contra câncer pulmonar"; "metais básicos fecham em baixa mas acima das mínimas"; "estudante Felipe Iasi prestará novo depoimento sobre caso Glauco"... Viram aí como é? A oferta de motes está lastimável.

Faltando cinco minutos para eu comunicar a trágica informação ao diagramador ("Júnior, não vai dar"), o senhor Ban Kin-moon veio me socorrer. Olhem que notícia linda às 15h34: "ONU busca reparar credibilidade afetada pelo 'climagate'".

Ai, ai, ai. Os leitores não agüentam; eu não agüento. O secretário-geral da ONU, atualmente ocupado em responsabilizar Israel pelas agressões que o país sofre, quer resgatar o prestígio do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (em inglês, IPCC). O sujeito não desiste. Paro aqui, pois não quero mais falar nessa fraude colossal e já cheguei às 30 linhas necessárias. Obrigado aos que tiveram paciência.

16 de março de 2010

O relato de Mosab Yousef

O Estado, 16/03/2010

Mosab Hassan Yousef, filho de um dos líderes do Hamas, revelou ao jornal Haaretz que trabalhou durante dez anos como espião para a inteligência de Israel, ajudando a identificar células terroristas e a prevenir dezenas de atentados contra israelenses. Mosab, de 32 anos, renunciou ao Islã, converteu-se ao cristianismo em 2007 e foi morar nos Estados Unidos.

Em entrevista ao Telegraph, Mosab reprovou a brutalidade do Hamas, que “está usando civis, crianças, o sofrimento diário das pessoas para atingir seus objetivos”, e salientou: “Os palestinos têm uma imagem ruim perante o mundo, mas eles são pessoas muito boas... eles são enganados, e a imagem ruim é causada por sua liderança. Eles precisam de ajuda, precisam que parem de mentir para eles e para o mundo”.

As revelações de Mosab foram divulgadas no fim de fevereiro. Alguns dias depois, integrantes da Autoridade Palestina e do Fatah reuniram-se em El Bireh, cidade palestina vizinha a Ramallah, para dedicar uma praça pública à memória da mulher que, em 1978, comandou o ataque terrorista mais mortífero da história de Israel.

O nome da moça é Dalal Mughrabi. Tinha 19 anos e liderava uma brigada palestina que saiu do Líbano, num barco, e aportou numa praia entre as cidades de Haifa e Tel Aviv. O grupo matou um jornalista americano, seqüestrou um ônibus, tomou outro e partiu para a chacina. 38 civis israelenses foram mortos, 13 deles crianças.

Uma pessoa ingênua poderia supor que a Autoridade Palestina, ao celebrar o 32º aniversário do assassinato de civis israelenses e homenagear a líder dos assassinos, sinaliza que não quer a paz com Israel. Mas a opinião abalizada do governo Obama e do beautiful people internacional é outra: quem atrapalha o acordo de paz é Israel, ao cometer a barbaridade de construir casas para judeus em Jerusalém Oriental. Assim não dá.

Convém ouvir as palavras de quem entende o assunto de dentro. É Mosab Yousef quem diz: “O Hamas não pode fazer as pazes com Israel. Isto é contra o que o deus deles ordena. É impossível fazer as pazes com infiéis, e ninguém sabe disso melhor do que eu. O Hamas é o responsável pela morte dos palestinos, não Israel. Eles não hesitam em massacrar pessoas numa mesquita ou em atirar pessoas do 15º andar de um edifício, como fizeram no golpe em Gaza. Os israelenses nunca fariam coisas desse tipo. Eu digo com certeza que os israelenses se importam mais com os palestinos que o Hamas ou o Fatah”.

11 de março de 2010

Por Gaia

Sei que esse assunto já ficou chato, mas era o único rascunho que eu tinha quando faltavam quinze minutos para o fechamento. Além disso, a ONU continua insistindo.

Por Gaia
O Estado, 11/03/2010

Políticos e cientistas tentaram salvar o mundo durante a reunião de Copenhague, mas a lógica do capital não deixou. Como resultado, tempestades de gelo cobrem os Estados Unidos, a Europa e a Ásia. Tem gente morrendo por congelamento. O responsável pelo drama, todo mundo sabe, é o aquecimento global inequívoco e irreversível.

A humanidade é formada hoje por dois grupos: um é engajado, ciente de sua responsabilidade como guardião do planeta. O outro é alienado, não quer agir em prol da Terra e das gerações futuras, que certamente precisarão de um lugar para morar. Este segundo grupo deveria ser eliminado o quanto antes. Reconheço que pode não ser a melhor solução, mas, tendo em vista a irreversibilidade do aquecimento global, tal medida serviria ao menos como controle de danos.

Alguns leitores podem estranhar a exortação, considerando-a um tanto excessiva. Defendo minha posição com dois argumentos. Primeiro: eu falo em nome da parcela da humanidade que deseja salvar o planeta, portanto estou acima de qualquer escrúpulo pequeno-burguês. Segundo: a imprensa nos informa diariamente que a causa do aquecimento global é o gás carbônico, e eu acredito em tudo que sai no jornal. Acompanhem o raciocínio: o gás carbônico é o vilão; o ser humano emite gás carbônico; o ser humano deve ser aposentado.

Um pequeno sacrifício em nome do bem maior. É preciso que cada pessoa sobre a face da Terra modifique seu modo de pensar, regule seu modo de agir e assuma um novo comportamento perante a humanidade humana e a humanidade animal (os ecologistas entendem que o homem não tem o monopólio da formação da humanidade; este processo deve incluir os animais ditos irracionais).

A tomada de consciência ambiental seria mais fácil se pudéssemos instaurar uma ditadura virtuosa global e colocar políticos e cientistas no comando, pois sabemos que políticos e cientistas não têm motivos para mentir por dinheiro e poder. Se a ONU cuidasse da economia mundial, entraríamos numa era de harmonia com Gaia.

A proposta é atrevida, mas estou querendo ajudar o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Há algumas semanas, ele disse que a comunidade internacional deve ser "mais ambiciosa" na negociação de acordos para combater o aquecimento global. Mesmo com o desmascaramento dessa histeria, o chefe da ONU continua insistindo. É um homem que age.

4 de março de 2010

Causa mortis: Estados Unidos

O Estado, 04/03/2010

Em 2003, Álvaro Uribe pediu a Lula que designasse formalmente as Farc como organização terrorista. Lula não respondeu. Ele resolveu falar em outra ocasião, quando as tropas de Uribe despacharam para o inferno os chefes das Farc que operavam no Equador: Lula exigiu que o presidente colombiano se desculpasse.

O PT divulgou nota, em janeiro do ano passado, chamando Israel de estado terrorista e comparando a reação israelense a oito anos de foguetes do Hamas às práticas do regime nazista. É a mesma opinião de Mahmoud Ahmadinejad, de quem Lula é assessor em assuntos atômicos. A bomba que o Irã desenvolve para atacar Israel sairá da fábrica com a ajuda da diplomacia petista.

Quando as instituições hondurenhas seguiram a Constituição e depuseram Manuel Zelaya, Lula reagiu prontamente contra a democracia e cortou os programas de cooperação econômica com Honduras. O homem estava indignado: "O Brasil condena o golpe de Estado... Os golpistas devem perceber o mal que estão fazendo para a democracia na América Central... É preciso respeitar a participação popular". Semanas depois, Lula emprestou nossa embaixada para que Zelaya iniciasse a guerra civil nas ruas de Tegucigalpa.

Agora Lula lamenta que Orlando Zapata tenha se deixado morrer. Vocês sabem o que houve: na ânsia de trair o comunismo cubano, Zapata dirigiu-se a uma cela, ficou lá alguns anos, parou de comer e maquiavelicamente deixou-se morrer. Raúl expressou luto rindo e conversando animadamente com Lula, que ria ainda mais. Fidel emocionou-se de tal jeito com a visita do estadista global que vestiu sua jaqueta da Nike. No dia seguinte, Lula indicou o caminho para a harmonia planetária: “Eu gostaria que todos os governantes do mundo agissem como eu ajo”.

Ao contrário do brasileiro comum, que pode ficar enojado com tanto cinismo, Lula existe acima de pudores reacionários. Perante o público de devotos, ele conta com dois argumentos infalíveis: a soberania nacional e os 240% de aprovação popular. Não há nada a explicar, portanto. O lulista apaixonado se encara no espelho tranqüilo, imponente, e encerra o assunto: “As Farc são um exército de resistência. O Hamas também. Ditadura de esquerda é democracia. E os Estados Unidos mataram Orlando Zapata”.