Artigo no jornal O Estado
Querido diário, estou quase explodindo de tanto entusiasmo. Depois de quase três meses de articulação pela internet, o sonho que eu cultivava desde o primeiro dia de aula lá na faculdade virou realidade: finalmente estou no acampamento do Fórum Social Mundial. Parece um sonho. Todos os meus amigos da faculdade vieram. Felizmente a gente conseguiu descolar uma grana dos nossos pais, porque lutar contra o capitalismo sem patrocínio é dureza.
No nosso acampamento só tem jovem sonhador e consciente. Eu mal cheguei e fui logo fazendo inscrição no painel do Frei Betto, um dos caras mais solidários do mundo. Tão solidário que é amigo até das Farc, representantes da luta do bem contra o mal que, no calor da batalha, são obrigados a manter inimigos do proletariado temporariamente longe de seus familiares por períodos de cinco a 10 anos. Frei Betto nos mostra que a solidariedade não tem barreiras. E daí se Fidel Castro, outro ídolo dele, mete bala em quem comete heresias contra a doutrina comunista? A Teologia da Libertação não tem preconceito contra ninguém. Eu acho que o Frei Betto é um exemplo de humanismo, e estarei na primeira fila quando ele for falar de ética lá no auditório da faculdade.
Também fui correndo prestigiar a palestra do Noam Chomsky, um dos mais conscientes do mundo. Pensamento crítico é com ele mesmo. O cara é fera, esculhamba os Estados Unidos desde que aprendeu a falar. Pouco importa se ele não larga o salário em dólar lá no Massachusetts Institute of Technology. A gente tem que enfrentar a máquina por dentro, esqueceu? Além do mais, lutar contra o capitalismo nos EUA é melhor do que lutar contra o capitalismo em Cuba, embora todo mundo saiba que os americanos são mais opressores.
Hoje comprei uma camisa do Che Guevara que um chapa meu anticapitalista me vendeu por R$ 15. Tava de R$ 20, mas ele foi legal e deu um descontinho pro amigo de ideologia. Os cinco que sobraram eu vou usar para pagar minha tatuagem de jenipapo. O preço é tão camarada que todo turista anticapitalista está fazendo a sua.
Enquanto eu tirava fotos do acampamento com minha câmera digital fabricada de modo artesanal e gratuito (sou contra o capital) para o álbum “Um outro mundo é possível” do meu Orkut, reparei que uma multidão se dirigia ao palco principal. Fui junto, porque meu espírito é comunitário. O presidente Lula tinha acabado de chegar e já ia discursar para os futuros eleitores da Dilma. O governo federal deu mais de R$ 70 milhões para o fórum, o que mostra que os pagadores de impostos brasileiros são os mais solidários do mundo. Tem que ser assim mesmo. Lutar contra o capitalismo sem patrocínio é dureza.