Uma coisa morta pode seguir com a corrente, mas só uma coisa viva pode ir contra ela. G. K. Chesterton


21 de novembro de 2011

Obrigado, Themístocles

Meu artigo no Estado

Quando conheci Themístocles de Castro e Silva, eu estava morrendo de medo. Precisava convencer um jornalista com duzentos anos de profissão a perder tempo dando entrevista para um bando de estudantes que só conheciam o jornalismo de ouvir falar.

Eu o lia desde muitos anos antes, cativado pelo texto forte, direto ao ponto, esculpido, sem literatice, embromação ou concessão às imbecilidades do dia. Quando, em meados de 2007, o curso de jornalismo da UFC me deu a chance de entrevistar pessoas eleitas por nós, alunos, meu candidato era óbvio.

Por sorte, descobri que o amigo Rodolfo Oliveira também lhe admirava os escritos. Submetemos o nome à votação da turma. Propagandeamos sua fama polêmica, e, para nossa alegria, os colegas fizeram de Themístocles o campeão de votos na tabela de sugestões para a nossa Revista Entrevista.

Eu e Rodolfo fomos ao encontro do homem para convidá-lo e explicar-lhe aquele negócio. Como disse, eu tremia na base, receando ver no trato pessoal a dureza que via nos artigos. E o que houve de fato foi o contrário total. O senhor educado e atencioso se dispôs a falar aos "futuros jornalistas, futuros sofredores".

Troquei vários telefonemas com ele para acertar a data, muitas vezes adiada por causa da saúde da dona Eunice. Eu me sentia ofensivo importunando-o, mas, vejam vocês, era Themístocles quem mais se desculpava, prometendo a cada ligação que, mais para frente, daria certo. Poderia cancelar o programa, tinha razões para isso, mas havia se comprometido.

Finalmente recebeu a turma. Por duas horas voltamos no tempo com ele, ouvimos o barulho das redações, entramos em gabinetes, acompanhamos as confusões de política e de jornal. Mas um instante marcou a todos nós de modo especial. Perguntaram-lhe sobre a doença da esposa. Abriu-se a brecha na velha armadura. “Eu reduzo em poucas palavras. Para o maior inimigo eu não quero essa situação que estou atravessando”. Os olhos marejaram, fez-se um silêncio sofrido, que ninguém na sala teve coragem de ferir. “Não tenho mais vida, não tenho mais nada”.

Quando terminamos, ele saiu apressado para voltar para casa. Eu o brequei num canto para agradecê-lo uma vez mais. "Muito obrigado, e me desculpe pela chatice dos telefonemas. Sei que o senhor está passando por um momento delicado...". Com ternura, ele me tranqüilizou. "Nãaaaaao, rapaz, deixe de besteira". E partiu para ir cuidar da primeira e eterna namorada.

Naquela e em ocasiões posteriores, quando eu e Rodolfo o visitávamos para conversar e tomar café, testemunhei e fiquei sabendo de outras coisas que me exigem o registro: Themístocles de Castro e Silva era um dos homens mais gentis e solidários, e o era sem fazer alarde, como bem sabem os seus amigos. Foi uma honra conhecer aquele senhor distinto.

17 de novembro de 2011

Até logo, Themístocles

Artigo do Rodolfo Oliveira no Estado

Tornei-me amigo do senhor Themístocles de Castro e Silva em meados de 2007. Eu tinha 22 anos de idade, e ele, 78. A bem dizer, esta amizade iniciou-se antes, em 2002, quando comecei a lê-lo semanalmente. Eu o lia e tentava imaginar quem era o homem por trás de opiniões tão fortes e escrita tão ágil e correta. No meio de todos aqueles artigos anêmicos, os escritos de Themístocles eram os únicos com sangue nas veias; ele escrevia como se estivesse em um barco em chamas; suas palavras ricocheteavam pelas paredes. Em 2007, eu era um estudante de jornalismo da Universidade Federal do Ceará, local onde o nome Themístocles era praticamente proibido.

Os estudantes, burros demais para saber qualquer coisa, estavam ocupados, muito ocupados, idolatrando o Lula, o Che Guevara, o socialismo, entre outras besteiras. Já os professores, mesmo os mais velhos, faziam questão de pôr Themístocles no ostracismo, alguns por ressentimento, outros por pura picaretagem. Acontece que eu não era o único leitor de Themístocles na UFC.

Um dia, conheci um estudante de jornalismo chamado Bruno Pontes e, certa vez, conversando pelos corredores da universidade, ele me confessou sua paixão pelo Themístocles. “É um homem de fibra, deveríamos ir lá, ouvi-lo”, disse-me. Pouco tempo depois, a oportunidade surgiu quando, por meio da revista Entrevista, da qual eu e Bruno fazíamos parte, tivemos a ideia de entrevistar o famoso jornalista. Era uma entrevista longa, de dez, doze páginas, e, para tanto, precisávamos, enfim, convidá-lo pessoalmente, explicar-lhe os propósitos da entrevista, etc. Cortei os cabelos rebeldes, pus a melhor roupa que tinha, preparei uma apresentação pessoal, mas, assim que cheguei ao local do encontro, o nervosismo dominou-me por completo. “E se o homem não nos receber? E se nos ignorar por completo?”. Bruno, ao meu lado, mal se continha em pé.

Até que a figura surgiu à nossa frente, cheio de energia. “Sentem aí, malandros, tenho pouco tempo, mas podem começar a falar”. Jamais esquecerei a generosidade com que nos recebeu naquela e em todas as outras ocasiões em que o procuramos. E foram muitas ocasiões.

Depois da entrevista, ficou a amizade regada a muitas sextas-feiras de café e prosa. Sempre que tínhamos tempo, eu e Bruno íamos ao encontro de Themístocles, pedir-lhe a bênção. “Olha quem apareceu para tomar café, a dupla dinâmica”, disse um dia ao nos receber. Em dezembro de 2010, eu e Bruno, já formados, o entrevistamos para o jornal O Estado, e, mais uma vez, prevaleceu a inteligência brilhante, a ironia sutil, a elegância de sempre e a indignação de um homem que não queria calar-se. Fica com Deus, Themístocles, e até logo.

O último

O último artigo que Themístocles de Castro e Silva mandou para O Estado:

Deboche em Alagoas

Leiam, por favor e com atenção, a nota a seguir, publicada em todos os jornais do País: “A Justiça de Alagoas determinou o bloqueio dos bens do deputado federal Arthur Lira (PP-AL), do prefeito de Maceió, Cícero Almeida (PP), e de mais 15 deputados e ex-deputados, acusados de enriquecimento ilícito e desvio de R$ 300 milhões da folha de pagamento da Assembleia Legislativa. Segundo o juiz André Guasti Motta, eles obtinham empréstimos do Banco Rural, avaliados pela Mesa Diretora”.

Por essas e outras, que foram quase rotina da Era Lula, é que a sociedade brasileira, pelos seus homens sérios, sente saudade do AI-5, tão violentos são a agressão e o deboche aos princípios morais do País.

Essa quadrilha é daquelas que enojam a vida pública, como tantas outras já flagradas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. O problema é de saneamento, pois tais indivíduos, além de traírem a confiança de quem os elegeu, não podem participar da vida pública.

Com mais atenção ainda, leiam esse detalhe da notícia de “O Globo”, (14/10/11):

“A proposta era a concessão de empréstimos pessoais consignados a parlamentares e servidores. O contrato previa limite para os parlamentares de R$ 150 mil, e para os integrantes da Mesa Diretora, o limite de R$ 300 mil. Muitas vezes, os parlamentares e os integrantes da Mesa Diretora não tinham dinheiro na conta para o pagamento do empréstimo. Então, a Assembleia arcava com o prejuízo, ressarcindo o banco. Até fantasma e laranjas eram suados na fraude”.

De tão escabrosa em termos de política, alguém pode até pensar que é piada. Quem não é radical nas medidas para punição desses ladrões, já que a legislação penal é de 1940? Quantos gatunos estão aí até com mandato de “representantes do povo”?

Temos aí o que nunca se ouviu falar em nenhum país do mundo: a instituição pública pagar as dívidas pessoais de quem a compõe. Avaliem se adotado esse modelo no Congresso Nacional, com 594 efetivos, além dos suplentes. Nunca se viu na vida pública brasileira nada parecido, a não ser na nefasta Era Lula, que reclama faxina rigorosa e permanente.

É triste constatar-se o nível de decadência a que chegou a classe política brasileira. Tem-se até a impressão de que tudo parece represália ao Movimento Cívico-Militar de 31 de Março, que deu exemplo de seriedade e patriotismo na vida pública. Ou o governo toma providencias radicais contra essas quadrilhas, ou estará conivente com a roubalheira que promovem.

Themístocles de Castro e Silva

15 de novembro de 2011


23/4/1929 - 15/11/2011

"Seja leal à sua própria consciência. Não se deixe levar por movimentos. Tenha personalidade. E o jornalista que não souber gramática, digo aos senhores: não será jornalista!" 

Themístocles de Castro e Silva falando à minha turma de jornalismo na UFC, em 2007.

14 de novembro de 2011

“Estudante” da USP comenta invasão

"Fomos torturados pela PM"
Meu artigo no Estado

Falei de novo com o “estudante”  da USP. Ele já se encontra em seu condomínio nos Jardins, depois de ter sido desalojado pela Polícia Militar numa ação “truculenta, reacionária e antipovo”, como ele qualifica a operação de reintegração de posse da reitoria.

Qual é o saldo da invasão?

Este ano nós decidimos acabar com o capitalismo, com os Estados Unidos, com a opressão de gênero e com a ordem burguesa em geral. Também queríamos que a biblioteca comprasse mais livros da coleção História e Verdade, da Editora Stalin. Esses pontos vão ficar pra outra etapa da luta. O importante é que conseguimos mostrar pro Brasil a truculência da PM.

Como assim conseguiram? A PM espancou alguém?

Os PMs olharam feio pra vários companheiros nossos e esqueceram de pedir "por favor" quando levaram a gente pra delegacia. Também há relatos de que um policial levou uma mãozada na cara de um companheiro. É um absurdo.

De fato, é um absurdo um policial levar tapa na cara no cumprimento do dever.

Você não me deixou terminar. O policial revidou com um golpe de cassetete. É um absurdo. Polícia não pode bater em jovem. É preciso respeitar nosso direito humano de bater sem represália da polícia assassina.

Você está afirmando que a operação da PM resultou em algum estudante morto?

Tentaram matar a nossa luta, o nosso ideal. Isso já é homicídio. O Brasil precisa saber que fomos torturados dentro do ônibus da PM.

A denúncia é grave. Em que consistiu a tortura?

Fomos proibidos de usar palavras como “fascista”, “ditadura”, “opressão”  e “elite” durante o trajeto até a delegacia. Alguns companheiros tentaram protestar, mas engasgaram e entraram em choque. Teve gente que foi obrigada a tomar banho. Um policial fez um comentário insinuando que deveríamos arrumar emprego. [Exaltado] O clima foi de terror. A imprensa tem que divulgar isso.

A USP botou a PM no campus depois que assaltantes mataram um estudante, em maio deste ano. Saiu agora uma pesquisa mostrando que a maioria universitária quer a PM lá. 

Somos minoria, mas e daí? O mundo não é perfeito. Eu, por exemplo, tive que deixar meu Polo Sedan na garagem durante a ocupação porque a luta exige o jogo de cena. O fato é que a PM foi colocada no campus pra reprimir os anseios populares, pra esmagar nosso ideal de um mundo melhor, onde podemos traficar drogas num ambiente de liberdade e viver eternamente à custa dos trabalhadores. Opa, peraí [O entrevistado nota que falou mais do que devia]. Apaga esse trecho. Apagou? Pronto, vamo lá. A PM foi colocada no campus pra atrapalhar o ambiente de estudo. A gente quer estudar e a PM não deixa.

10 de novembro de 2011

Divulgação revolucionária

Agradeço ao Comitê Central do Partido por ter autorizado a publicação da entrevista com o "estudante" da USP no Vanguarda Popular, o sítio democrático popular do proletariado universal.

3 de novembro de 2011

O culpado de sempre

Comida fria e ruim?
Culpa dos Estados Unidos
Artigo do Rodolfo Oliveira no Estado 

Quem estudou em universidade pública sabe do que estou falando. Além das greves dos professores – duas ou três por ano, a depender do humor da categoria –, é impossível assistir a uma aula completa – quando há a aula, claro – sem sermos interrompidos por alguma chapa de estudantes disputando alguma coisa. O mais hilário é que os estudantes, na mais absoluta falta do que fazer, já que estudar, afinal, parece ser algo fora de cogitação, levam a sério essas disputinhas internas a tal ponto que trocam insultos nos corredores e bandeiradas nos pátios. Che Guevara não aprovaria tamanha desunião interna e, tenho certeza, resolveria isso em um julgamento rápido e indolor.

Outro fato deveras curioso é que são sempre as mesmas caras que estão no meio do tumulto. Quando chega a época das eleições para algo são sempre as mesmas figurinhas batidas que voltam a pulular nas salas e corredores da universidade, muito embora essas figuras quase não sejam vistas em época de normalidade escolar.

Um dia, na fila do restaurante universitário, o destino me pôs bem entre duas dessas figuras mais agitadas e pude, infelizmente, ouvir trechos da conversa. “Escuta, Armando, esse ano não podemos cometer os mesmos erros das eleições de 93. Vamos brigar para vencer!”. “Sim, Jorge, mas lembre-se que nossa chapa só não levou as eleições de 91 por uma óbvia interferência burguesa!”. Estávamos em 2007, meus senhores, 2007, o que quase me fez perder o apetite. Os dois faziam parte do famoso grupo de “estudantes profissionais”, compostos por, entre outros, maconheiros e comunistas barrigudinhos e já calvos, e que, não obstante estarem na faculdade há 15 anos, estavam sempre preocupados com a qualidade do ensino superior. Eventualmente, lutavam também pelo fim dos Estados Unidos, pela destruição do estado de Israel, pelo fim do capitalismo moribundo, pelo controle da mídia golpista, pelo fim do latifúndio, e outras coisas mais. Tudo isso a partir de uma mera chapa de estudantes. Mas atenção, leitores! Esses sujeitos ficavam extremamente ofendidos caso você risse dessas coisas todas!

Um dia, questionei o programa de uma das chapas. “Olha, aqui diz que, para melhorar a qualidade da comida do restaurante universitário, é preciso, antes, lutar contra toda forma de opressão ao bolivarianismo indígena e romper de vez com as amarras do modelo econômico neoliberal vigente nas civilizações judaico-cristãs. O que uma coisa tem a ver com a outra?”, perguntei inocentemente. “Tudo”, foi a resposta que obtive. “Tudo está interligado, e nosso programa ataca a coisa como um todo, entende?”.  “Tá bom”, e lá fui eu comer o frango duro e frio do restaurante universitário, frio e duro, claro, por culpa dos Estados Unidos.